venerdì 5 dicembre 2008

um Tempo perdido


...só a ruina permanece. Memórias de um Tempo, não à tanto Tempo assim. Tempo de mudança.
Tempo em que a esperança reinava e a prosperidade sorria.
Tempo em que os homem tinham medo do Tempo em que desciam aos infernos.
Tempo em que valia a pena descer aos infernos, independentemente do Tempo que lá se passava... e por vezes Tempo demais.
Tempo em que, mesmo que fizesse mau Tempo, o homem descia aos infernos durante muito Tempo.
Foi um Tempo em que circularam minerio e pessoas. E durante esse Tempo, a paisagem alterou-se. Em pouco Tempo, seria impossivel reconhecer um lugar que há não muito Tempo atrás, era obra unica da mãe natureza. E o Tempo passou... e consigo levou as pessoas... as máquinas.
Pouco Tempo depois, nada restava senão a memória dum Tempo perdido, presente na mente de quem desceu aos infernos, durante tanto Tempo, que não deram pelo Tempo passar...


Outros Tempo(s)

martedì 2 dicembre 2008

2.12.8_?.?.?

E naquele dia 2 de Dezembro de 2008, Jarreta levantava-se e anunciava ao Mundo que havia começado a sua aprendizagem, período durante o qual iria estudar, ver, ouvir, ler e perceber aquilo que encontrava à sua volta, com a promessa de que quando se visse no espelho, encerraria tal momento.

E materializaria o seu reflexo.

venerdì 31 ottobre 2008

sabato 23 agosto 2008

??

Há já muito tempo que ando à procura do meu mas não faço ideia onde esteja...
Aliás, na verdade não sei se o tenho...
Será que alguma vez o tive? Duvido muito...
Na realidade não sou só eu que ando à procura. A maior parte das pessoas andam à procura...
Digo a maior parte porque uma minoria já o encontrou, outra minoria nem está para aí virada...
Existe também quem já o tenha encontrado mas, forças internas não permitem que isso seja visível aos olhos de todos. E sem este último, deixa de ter valor para a grande maioria.
É neste caso que a minoria da grande maioria se pode sentir bem consigo própria.
Embora possa estar enganado, consigo encaixar alguns em alguns destes grupos, mas não a mim...
Talvez no fim...

giovedì 22 maggio 2008

giovedì 1 maggio 2008




Fantasia ou realidade. Ambas são criadoras de momentos que nos deixam perplexos perante a diversidade da vida. Procura-se a fronteira, explora-se o limite máximo até perder a noção espaço/tempo, e encontrar a resposta à mais ínfima e pertinente questão, que nos assalta de manhã ao acordar, e à noite ao deitar. Assalta-te quando sais de casa e quando a ela chegas. É um jogo que se vive num constante saltitar de cenários e personagens, umas mais reais que outras, ou pelo menos assim pensamos. Acercam-se de ti com perguntas disparatadas e frases incoerentes. Pensamentos incompletos e opiniões diversas. Limitam-se a levantar questões em prole de uma sociedade cada vez mais regrada e suja de mentiras que corrompem o ser humano. Sentes a opressão em ti, mas no entanto aceitas como uma fatalidade. Encaras o mundo com um sorriso nos lábios. Ages com sabedoria e sensatez, mas também com uma boa dose de loucura e emoção. Procuras percorrer o teu caminho.

Encaras a vida como uma dádiva, uma oportunidade para trazer algo a uma realidade, dentro de um determinado contexto. Como num tabuleiro de xadrez, tens um objectivo, uma táctica e as tuas peças. Podes jogar na defensiva ou ao ataque. Podes ser audaz ou podes ser cauteloso. Mas invariavelmente, o jogo tem apenas dois destinos… ou ganhas ou perdes.

Imaginar jogar contra nós próprios, jogador real vs jogador fantasioso, é como se automaticamente perdesses e ganhasses todos os jogos. Por vezes um pedaço em ti ganha. O outro não. É isso que nos mantém ligados ao mundo, num sistema complexo de sucesso e derrota, que não é mais que o sucesso ou derrota do teu ataque à dama do jogador adversário. É uma jogada importante, mas não decisiva. Isto é, o sucesso desta jogada não vai determinar a vitória. Eventualmente o ataque à rainha pode ser um erro tendo em conta futuras jogadas, mas no entanto rasgas um sorriso de satisfação. É como se invariavelmente os dois adversários “tu”, estivessem de certo modo interligados por uma sequência de jogadas e decisões que, apesar de tudo tende sempre para um desfecho pré destinado. Aos olhos de um leigo, o jogador com mais peças na mesa, está a ganhar, ou seja tudo indica que o desfecho seja o jogador A ganha ao jogador B. Mas no entanto, contra todas as expectativas e convicções dos demais, o jogador B ganha. Ninguém esperava é certo, mas ganhou.

La Mela

mercoledì 30 aprile 2008

(…)

1848
(…)

1910
(…)

1952

Nasceu de novo. Naturalmente desconhecendo o facto, voltou a aprender a comer, a andar, a falar, e novamente foi criando a sua personalidade ao longo dos anos. Um rapaz conflituoso e rebelde, que poderia ser definido por uma palavra: Revolta. Revolta consigo próprio e com a realidade em que estava inserido e à qual não queria pertencer.

Filho único de uma família pobre, já com mais de dez anos tinha de sujeitar-se ao trabalho duro do campo na companhia do seu pai. Nos tempos livres aproveitava para ler, escrever e ouvir musica, pois achava ser a melhor maneira de se refugiar num mundo interior, esquecendo ainda que momentaneamente o mundo exterior que tanto o revoltava.

Pedro era um rapaz inteligente e queixava-se sobretudo da falta de oportunidades que a vida lhe proporcionara. Nos momentos de maior revolta, a sua rebeldia vinha ao de cima e por vezes desaparecia durante um ou dois dias sem deixar qualquer rasto, outras vezes rasgava e pintava as fardas militares que a mãe passava todos os dias a costurar numa luta inglória contra as artroses. Embora soubesse que os pais faziam tudo para lhe dar uma vida melhor, via naqueles actos irreflectidos, a única maneira de manifestar aquilo que sentia.

Todos os dias saía de casa com as suas calças justas e t-shirts queimadas pela violência do sol. Também o chapéu fazia sempre parte do seu visual “forçado” que tanto odiava. Mas, como era habitual, saía de casa com o livro debaixo do braço para entrar no seu mundo preferido. Aproveitava sempre para se ausentar durante os poucos minutos da viagem até ao local onde iria passar longas horas de trabalho.
Quando chegava a casa, depois de um merecido banho, ia escolher da sua pequena mas dedicada colecção, qual o vinil a ser tocado pela agulha do giros discos. Normalmente escolhia o “Sgt. Pepper’s”, ou o “Tommy”. Depois de jantar, e antes de dormir, desenhava e escrevia mais um pouco no seu diário pessoal, maioritariamente preenchido com poemas, seus e dos seus autores preferidos.

Um dia, Pedro tomou uma decisão difícil, partiu sozinho e nunca mais foi visto…

1979

Nascido no seio de uma família inglesa, Mike era um pequeno rapaz com duas irmãs, uma mais nova e outra mais velha. A mãe era uma conceituada professora de línguas e o pai tinha um cargo elevado na Força Aérea, local onde o jovem passava grande parte do seu tempo a tocar guitarra, depois das aulas.

Não era a primeira vez que vinha ao mundo, embora em roupas sempre diferentes e que não poderia mudar nunca. Algo de estranho aconteceu desta vez, e Mike apercebeu-se disso numa fase em que estava ainda a construir a sua personalidade.

Tinha luzes sobre o seu passado “recente”, e isso levou-o a interessar-se cada vez mais por aquilo que de forma consciente ou inconsciente fazia recordar-se de si próprio.
Adorava as fardas vermelhas com botões dourados que via constantemente enquanto esperava pelo pai. Tinha como discos de eleição “Sgt. Pepper’s”, “Revolver”, “My Genaration” ou “Ogden's Nut Gone Flake”, e rapidamente adoptou o visual que antes odiava, mas que agora o divertia e fazia sentir-se bem. Olhava orgulhoso para as suas t-shirts velhas e o chapéu de feltro.

Adorava ler e escrever, e por isso mesmo, depois de concluir com êxito a escolaridade mínima, optou por mudar-se para uma cidade maior com universidades de Literatura.
Passou a viver numa casa alugada, longe da família mas perto de Frank, um rapaz com o mesmo objectivo e com quem viria a criar uma amizade para a vida.

Tinham bastante em comum, desde o motivo que os unira, o curso de literatura, ao gosto pela música, pela arte, por nomes como Emily Dickinson, Oscar Wilde ou Pete Townshend e até mesmo na personalidade. Ambos eram bastante irreverentes, embora Mike guardasse dentro de si um espírito mais rebelde e conflituoso que por vezes se tornava prejudicial e o levava por caminhos errados.

Não foi preciso muito tempo até começarem a dedicar parte do seu talento à escrita de canções tocadas e cantadas pelos próprios. Aquilo que inicialmente era um hobbie passou a tornar-se algo mais serio, e quando Mike comprou a sua Rickenbacker foi a confirmação. Abandonaram os estudos de forma prematura, mas agarraram-se de corpo e alma a um projecto que queriam levar até ao fim.

O sucesso local que os “debauched” começavam a ganhar em pequenos pubs depressa ganhou outra dimensão. Ao contrário do que sucedera no passado, agora Mike tinha tudo para vencer, desta vez dependia apenas de si.

Ao fim de 4 anos, a fama que a banda conquistava parecia já não ser suficiente para esconder os problemas de álcool e drogas que tinham possuído alguns elementos da banda. A qualidade das músicas, porem, não diminuía, antes pelo contrário.

Mike começou a faltar a alguns ensaios.

Mike começou a faltar a alguns concertos.

Mike começou a dar mais importância às drogas.

Mike assaltou a casa de Frank.

Frank decidiu terminar com tudo o que tinham construído.

Mike tomou uma decisão difícil, partiu sozinho e nunca mais foi visto…


2008

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A cidade por onde passou Jarreta...





do Lat. satellite

s. m.,
planeta secundário que gira em volta de um planeta principal, acompanhando-o no seu movimento de translação em torno do Sol;

companheiro inseparável em posição de dependência.

giovedì 17 aprile 2008

Sabine Delafon WORKING













artista: SABINE DELAFON
título: I LOVE SABINE DELAFON
keyword: FILRT

Milano 2008

lunedì 7 aprile 2008

A esplendorosa decadência/ O decadente esplendor

As cidades são, já desde há muito tempo, simples e pragmáticas. São como máquinas que se organizam de maneira a que funcionem de modo eficaz. Usam as pessoas para desempenhar as funções vitais que lhes permitam ser cidades disciplinadas. O acordo entre pessoas e cidades é antigo, de modo que, regra geral, as pessoas fazem os possíveis para ajudar as cidades a funcionar bem. As cidades são também mais velhas que as pessoas, muito mais velhas, e têm, por isso, autoridade sobre estas.

Jarreta chegou um dia a uma grande cidade que se avizinhava ao longe, lá bem ao longe, quando o horizonte não deixa distinguir mais que um perfil que recorta o céu, bela e organizada como tantas outras que conhecera. A cidade era conhecida por aqueles que a habitavam como a cidade de Arromac. Os que não a habitavam, aceitavam este nome, por não se lembrarem de nenhum melhor.

Arromac localizava-se, do ponto de vista geográfico, numa zona bastante atípica. A cidade crescia duma baía, tão bonita quanto grandiosa, que abraçava com toda a força dos seus braços, até ao cume dum vulcão que espreitava sorrateiro lá de cima. Ocasionalmente, e quando aborrecido, emergia em erupções violentas que arrasavam Arromac nalguns dos seus pontos mais sensíveis.

Arromac era uma cidade velha, não habitada por gente velha, mas velha no sentido em que várias gerações de gente nova a haviam percorrido e, por vezes, mal tratado. Arromac era uma senhora que deixava perceber nas rugas do seu rosto a beleza que outrora ostentara.

Apesar de todas estas particularidades, Arromac poderia, ainda assim, ser uma cidade como tantas outras. Mas não era. Ao contrário de algumas cidades vizinhas, que mantinham excelentes relações pessoais e profissionais com os seus cidadãos, Arromac não tinha qualquer tipo de autoridade sobre aqueles que a ocupavam. Era como se os seus habitantes não quisessem saber dela para nada e pura e simplesmente lá morassem porque não tinham outro sítio para onde ir. Deste modo as regras que normalmente regem as pessoas da cidade, acordadas entre umas e outra, ou outras e uma, aqui não existiam, de maneira que cada um fazia o que lhe desse na real gana sem prestar satisfações à pobre Arromac que se sentia impotente perante tamanho abuso.

Jarreta nunca na sua vida, na sua longa e completa vida que dedicara a coleccionar cidades, tinha visto tamanha desorganização.
Jarreta não viu regras de cidadania.
Jarreta não viu regras de trânsito.
Jarreta não viu regras de funcionamento.
Jarreta não viu regras disto e daquilo, assim como não viu regras de qualquer natureza, de maneira que se encontrou metido numa verdadeira selva urbana, onde macacos e macacas se passeavam descontraidamente, satisfazendo os caprichos que lhe iam na alma.

Jarreta não se sentiu menos impotente que Arromac perante a selvajaria dos seus habitantes. Conformou-se e explorou-a.

Apesar de tamanho desrespeito, Arromac mantinha-se bela na sua decadência, pois deixava adivinhar por trás da película suja que a cobria, a nobreza do que era a sua essência. Era como um palácio gigantesco deixado ao abandono, onde era preciso percorrer sala atrás de sala, espreitar por baixo de tapetes e atrás de cortinas, subir e descer escadas, saber ver, onde outros não viam, o esplendor que raramente se encontra.

Por isso, e por outros motivos talvez, Jarreta apaixonou-se por Arromac.

Quando se vive muito tempo na mesma casa sem a limpar, cria-se uma sujidade que se domestica e que passa a ser uma sujidade característica dessa casa, uma sujidade com carácter, digamos assim, que não incomoda aqueles que lá vivem. Estes passeiam por ela, com a indiferença de quem só vê aquilo que sabe ser a sua verdadeira casa.

Foi com esta indiferença que Jarreta descobriu Arromac, passando pela sua sujidade com a confiança e intimidade de quem já a tinha habitado por longos anos.

martedì 25 marzo 2008

sabato 8 marzo 2008

mercoledì 5 marzo 2008







Passaram dias, meses, anos até estar novamente no topo do mundo. A espera foi longa, mas ao fim de tantos impasses, finalmente está mais perto daquilo que lhe faltou durante estes últimos meses. Um espaço a ser ocupado na realização pessoal de alguém, aliado a uma ambição sem limites, permitiu que nesse dia pudesse inspirar um novo ar, um ar diferente, emotivo, cheio de adrenalina, enquanto encarava de frente aquilo que o esperava durante as próximas horas. Sem qualquer consciência do perigo que poderia correr, preparou-se para o desconhecido. Pouco falta para por fim à espera. A emoção é tanta que o brilho dos olhos é comparável ao reflexo da grande superfície branca que o envolve.
A subida é longa e morosa, mas no entanto calma e relaxante. Permite avaliar com clareza tudo o que se passa à sua volta com olhos de falcão. Ouvir o silêncio da montanha, por vezes interrompido pelo som deslizante das pessoas a 10 metros abaixo. Este ascensor estelar tem várias paragens, mas ele quer a última.
O ar rarefeito e gélido anuncia a chegada. Passaram-se horas, sempre saltando de ascensor em ascensor, procurando sempre ir mais acima. Acima dos olhos da águia e do falcão. Poucos se atreveram a subir, não pelo perigo que representa, mas pelo imenso respeito que têm por este gigante branco. Pela primeira vez olhou para trás e encarou o desafio. Num misto de alegria e excitação, esboçou um sorriso rasgado, e apertou as botas. Olhou uma vez mais e inspirou fundo…




lunedì 25 febbraio 2008

Rufinas

Rufinas era um rapaz franzino e esverdeado. Tinha uma cara chupada e um ar decadente, reflexo duma alimentação subnutrida, não por falta de meios, mas por desleixo. Tinha cabelo escovado que lhe caía na cara ao acaso, sem o mínimo vestígio da passagem dum pente que lhe tentasse dar um ar mais digno. Tinha olhos pretos e um nariz magro e pontiagudo que encerrava uma boca que não ria, senão para alegrar a superiores. Na cara crescia-lhe um pelo ralo, a que não se podia chamar barba, que nunca era rapado, acentuando o jeito deslavado com que se apresentava. Sustentava esta figura num corpo escanzelado e desequilibrado, cuja única função era transportá-lo da porta do carro para outro sítio qualquer. Não andava a pé e nunca fazia desporto, não tanto por lhe faltar a vontade, mas porque a saúde débil não o permitia. Não se preocupava com a aparência repugnante que tinha porque julgava o intelecto superior ao corpo.

Ainda que nunca tivesse passado dum aluno mediano durante o seu percurso académico, acreditava possuir uma mente superior. Aceitava com desprezo os resultados medíocres porque não via nos professores cabeças suficientemente sabedoras para o poderem avaliar. Não cultivava muitos amigos, porque a sua aparência doente era alvo de chacota da miudagem, mas os que tinha eram-lhe leais.

Acabou os estudos sem mérito e entrou para a vida profissional decidido a fazer o que fosse preciso para ter sucesso. Ali, e rodeado de gente menos parva e mais adulta, encontrou novas amizades, com as quais manteve boas relações pessoais e, sempre que lhe convinha, excelentes relações profissionais.

Desde o princípio não sentiu dificuldades em pisar colegas de trabalho para sobressair. Fazia um esforço desmesurado para que reparassem nele. Aliou a sua falta de escrúpulos a uma sede de conhecimento rápido que lhe permitisse adquirir uma posição de destaque. Assim aconteceu e no final do primeiro ano, quando lhe reconheceram o mérito profissional, sentiu-se concretizado sem sentir o peso da dor daqueles que atropelou. Os anos seguiram-se e nunca mudou a sua conduta.

Ao fim de algum tempo encontrou num superior o modelo de vida que procurava e tornou-se cego. Deixou de perceber a fronteira que separava os seus amigos dos restantes colegas de trabalho, começando também a passar por cima destes. Eles ressentiram-se e avisaram-no, sem no entanto deixar de prezar a sua amizade. Apesar de atraiçoados confiaram que o seu aviso seria suficiente para reatar as boas relações. Desconheciam que naquela fase da vida, Rufinas privilegiava o seu novo objectivo às antigas amizades.

Perdeu a confiança daqueles que lhe eram próximos e focou-se unicamente em chamar a atenção daquele misterioso homem que iluminava a sua existência. Tentou vestir-se melhor e disfarçar a cara doente que ostentava, mas cedo percebeu que o esforço era inglório.

Por fim, e quando todas as suas relações pessoais já estavam deterioradas, conseguiu finalmente a atenção que tanto tinha desejado. Foi recompensado com conversas mais privadas e a possibilidade duma relação pessoal e profissional com aquele homem que tanto admirava. Apaixonou-se. Nunca tinha tido sucesso com raparigas, mas nunca tinha manifestado tendências homossexuais. A sua virgindade era assunto que o envergonhava e que, nesta fase da vida, lhe deixava dúvidas em relação ao que desejava.

Enquanto se tornava cada vez mais próximo daquela figura misteriosa, afastava-se cada vez mais dos amigos que em tempos o animavam. A dada altura alcançou uma relação mais próxima do que algum dia poderia vir a imaginar. Quando se apercebeu, tinha a língua daquele homem enigmático a vasculhar os recantos da sua boca. Deixou-se levar pela segurança e pela naturalidade com que ele conduzia a situação. Naquela noite perderia a virgindade, mas não da maneira que sempre imaginara.

No dia seguinte, ao acordar, o homem que lhe roubara a dignidade comunicou-lhe que aquela tinha sido uma noite de excessos em que ambos se tinham descontrolado. Seria melhor se nunca mais se encontrassem.

Correu para casa sem dar conta do caminho que seguia e sem saber o que pensar. Estava completamente perdido e desnorteado. Nunca se tinha sentido tão inseguro. Quando chegou a casa chorou durante cinco dias seguidos. Esvaziou-se em lágrimas, mas não encontrou nenhum sentimento que o voltasse a preencher. Pela primeira vez na vida não tinha certezas. Lembrou-se de ligar a algum amigo, mas só aí percebeu que já não tinha nenhum. Os anos que passou a trepar pelas pessoas afastaram-no definitivamente do mundo das amizades que é o único refúgio dos desamparados. Empalideceu. Percebeu que naquele momento já não contava com ninguém. Estava sozinho e isolado. Enlouqueceu. Correu à volta do quarto. Bateu com a cabeça nas paredes. Mordeu os braços e arranhou o corpo. Chorou as lágrimas que já não tinha. Finalmente olhou pela janela do quarto e encontrou a solução.

Abriu as portadas da janela com uma expressão de alívio. Passou a perna para o lado de lá num gesto maquinal e inconsciente. Balançou o pouco peso do corpo para fora e passou a outra perna. Teve tempo de largar um suspiro. Caiu, como uma pena leve que baloiça aos ziguezagues pelo ar até encontrar um chão que a ampare. Não se ouviu nem uma pancada seca quando tal aconteceu. Foi encontrado horas mais tarde por uma vizinha que chamava o cão que lhe mijava na cabeça.

martedì 22 gennaio 2008

Cidade de B

Jarreta tinha por hábito coleccionar cidades. Não as visitava. Coleccionava-as!
Caminhava com segurança. Ouvia a música de que gostava, não nos auscultadores do seu i-pod, mas na sua cabeça.
Andava sempre sozinho. Passava despercebido quando visto de longe no meio da multidão. Não tinha amigos, nem familiares. Tão pouco tinha conhecidos. Variava propositadamente as lojas que frequentava para evitar ser reconhecido. Não tinha emprego, nem o ambicionava.

Jarreta gostava, sobretudo e essencialmente, de música e de coleccionar cidades.
No terceiro domingo do mês de janeiro, Jarreta chegou, pela primeira vez, à cidade de B. Não a conhecia, nem nunca ouvira falar dela. Jarreta não esperava ser surpreendido pela cidade de B. No fundo, não sabia porque lá estava.

A cidade de B apresenta a condição rara de não se estender nem numa planície nem numa montanha, mas sim em ambas. Na realidade, a cidade de B podia ser duas cidades. Existe o cá em baixo e existe o lá em cima, divididos por um enorme tapete de nuvens que os escondem um do outro.

Quem habita cá em baixo afirma nunca ter visto o sol. Quem habita lá em cima acredita que a cidade flutua acima do céu e paira por cima de outras cidades sem nunca tocar no chão.

Jarreta chegou à cidade num comboio de alta velocidade vindo de oriente. Quando saiu da estação encontrou a cidade-planície que, de traçado largo e rigoroso, se expandia à sua frente a perder de vista.

Errou pelas ruas sem destino. Pontualmente entrou em edifícios que lhe chamaram a atenção. Sentiu-se bem tratado pela cidade que agora o recebia. Nas ruas viu gente que se passeava com alegria. Como todos os outros, não viu o sol.

Ao fim de largos passos, Jarreta, como que por desastre, encontrou uma máquina rara que o convidou a atravessar o céu. Considerando que tinha já conhecido a cidade-planície, aceitou o convite da máquina rara e saltou para as suas costas. De imediato a máquina arrancou para o levar em poucos segundos à outra metade daquela estranha cidade de B.

Ao chegar a esta nova parte da cidade, Jarreta sentiu o ar mais leve e a luz mais forte. As ruas eram estreitas e altas. Os edifícios eram um pouco mais velhos que na cidade-planície e por isso tinham as costas tortas, inclinando-se para a frente. As ruas eram um espectáculo de luz e sombra que distraíam Jarreta. A cidade-montanha era desorganizada. O seu traçado era irregular. As ruas, já velhas e caprichosas, contorciam-se para o lado que lhes convinha e por isso os percursos eram caóticos.

Jarreta escalou a cidade-montanha com agrado. Ao chegar a uma praça grande, encontrou uma senhora torre que do alto dos seus duzentos metros o convidou a subir. Jarreta subiu. Ao chegar ao cimo viu a cidade-montanha flutuante. Aquela que pairava em cima dum manto de nuvens. Parou por vinte e sete minutos e riu perante tão bizarra e maravilhosa situação. Depois desceu reconfortado e bem-disposto. Deixou-se perder pelo labirinto que era a cidade-montanha e quando deu por si, encontrava-se rodeado por um espesso nevoeiro.

As nuvens que suportavam a cidade-montanha tinham subido para bloquear a visão dos seus habitantes. Em menos de cinco minutos deixou de ver o que quer que fosse.

Decidiu que era a altura de abandonar a fabulosa cidade de B. Desceu às apalpadelas para a cidade-planície e encontrou o caminho até à estação. Despediu-se da cidade de que tanto gostou e guardou-a no bolso.

Quando chegou a casa tirou-a do bolso. Meteu-a junto de tantas outras na colecção que orgulhosamente mantinha.