sabato 24 ottobre 2009

Farewell to Gio

Don Vito in “Io vorrei una birra”

Mercoledì, 14 Novembre 2007

Sabato, 24 Ottobre 2009

Fábula III: Tipak, o equilíbrio da mediocridade; Tehik, a detonação do sublime.


Para Tehik existiam apenas dois estados de contentamento absoluto: a ignorância e o sublime. O primeiro era uma dádiva concedida a muitos, o segundo, concedida a muito poucos.

Para Tipak existiam apenas dois estados de espírito: o satisfeito, ou o muito satisfeito. O primeiro era o mais comum, o segundo era também recorrente. Ou se calhar tão frequente como o primeiro. Nem ele sabia. Era um bocado tudo igual. Tipak acordava feliz e adormecia feliz. O seu dia era uma sucessão de eventos que o deixavam nem mais contente, nem mais triste, mas que contribuíam para que tudo continuasse bem.

Tehik vivia angustiado. Não sabia bem o que procurava, nem o que encontraria. Constantemente avaliava o que o rodeava e sorria quando descobria um sinal de excelência, coisa que raramente sucedia. Deambulava à procura de uma ideia que nem o próprio sabia caracterizar: o sublime.

Um dia Tipak foi a um grande evento na cidade de Tafis. Naturalmente gostou. Divertiu-se, riu-se, olhou em volta e aprovou. Comeu como come uma criança quando o pai lhe leva uma colher a boca. Não pensou mais sobre isso. Algum tempo depois foi a outro evento na cidade de Nolk. Naturalmente gostou. Poderíamos dizer que gostou tanto como gostou de ir a Tafis. Ou talvez um bocadinho menos. Não sabemos ao certo. Para dizer a verdade, é um bocado indiferente, porque também não pensou mais sobre isso. Para Tipak, ir a Tafis, ou a Nolk, foram mais duas ocasiões para juntar à sucessão das coisas que se passaram na sua vida e que contribuíram para que tudo continuasse bem.

Um dia Tehik foi a um grande evento na cidade de Tafis. Desesperou. Olhou em volta à procura de algo que não roçasse a vulgaridade e não encontrou. Tudo ali era propositadamente mau. Parecia um enorme esforço para juntar um conjunto de factores degradantes num hino à mediocridade. Foi-se embora deprimido. Algum tempo depois foi a outro evento na cidade de Nolk. Nunca mais se esqueceu. Ali encontrou pela primeira vez o sublime e esse fantasma persegui-lo-ia para o resto da sua curta vida.

Tipak seguiu a sua vida comodamente. A seguir às experiência de Tafis e Nolk, sucederam-se outras, que nem o próprio saberia descrever detalhadamente e que preencheram uma vida em que tudo foi correndo, mais ou menos, bem. Tipak morreu como viveu, feliz.

Tehik chegou a casa depois de voltar de Nolk feliz e concretizado. Conheceu nesse período uma alegria que jamais experienciara. Porém, com o passar dos dias voltou à angustia que antes pautava a sua vida. Desesperou. Após algum tempo, descobriu uma maneira de reviver a experiência de Nolk. Fê-lo e, ao revivê-la, apercebeu-se de coisas que não tinha reparado da primeira vez que tinha estado em Nolk. Ficou maravilhado. Repetiu outra vez. E outra. E mais uma. E de cada vez que o fazia, a sua cabeça explodia num êxtase de absorção do sublime que nunca tinha provado. Sentia a cabeça cada vez mais preenchida e mais pesada. Sentia o contentamento absoluto provocado pelo sublime multiplicar-se exponencialmente. Estava, finalmente, feliz. Não sabia sequer descrever o que sentia ou o que pensava. E de repente, num instante impalpável, a sua cabeça implodiu, como que um detonar do sublime, e fê-lo perder todas as sua capacidades. Parou e deixou de sentir o que quer que fosse. À vista dos outros tornou-se um vegetal. Morreu pouco tempo depois. Não sabemos se, nesse período em que a sua cabeça parou, se tornou ignorante. Na sua linguagem, nunca saberemos se foi feliz.

martedì 22 settembre 2009

sabato 20 giugno 2009

1939 Returning


“ Shukhov adormeceu completamente satisfeito, feliz. Fora bafejado por vários golpes de sorte durante aquele dia: não o haviam posto no xadrez; não tinham enviado a brigada para o Centro; surripiara uma tigela de kasha ao almoço; o chefe da brigada fixara bem as rações; construíra uma parede e tirara prazer do seu trabalho; arranjara aquele pedaço de metal e conseguira passá-lo; recebera qualquer coisa de Tsezar, à noite; comprara o tabaco. E não caíra doente.

Um dia sem uma nuvem carregada, sombria. Quase um dia feliz.


Contava já no seu activo três mil seiscentos e cinquenta e três dias como este. Desde o primeiro até ao último toque na barra do carril.

Os três dias suplementares pertenciam a anos bissextos.”

lunedì 1 giugno 2009

Dia P

Aquele suspiro dizia tudo. Mais um olhar para o céu, mais um momento em que o vento levava as palavras ditas a um só tom.

A sua vida era um autêntico quadro cubista, uma realidade desconjuntada, aparentemente perfeita, onde algo não batia certo.

É só mais um dia”, pensava ela novamente.

Só mais um entre tantos outros, à espera da palavra errada, do dia P, do momento certo para dizer a toda a gente aquilo que a faria bater com a cabeça de tal modo que poderia nunca mais voltar a cair.

E só quando sentiu o seu mundo a tremer, a dividir-se em dois, tendo um pé de cada lado, percebeu como estava sozinha.
Um dia era apenas mais um mês. Uma conversa só mais um monólogo, uma viagem só mais um sonho, uma foto só mais um espelho vazio a contrastar com a mente.

Após várias ameaças, as fundações começaram a ceder. Caiu pela primeira vez ao fim de mais de duas décadas. Percebeu finalmente que há várias maneiras de morrer e não era esta aquela que tinha idealizado.

lunedì 18 maggio 2009

Pensamento recorrente...

.
cada vez + me sinto 0-
.
e não consigo perceber se isso é positivo ou negativo...
.

mercoledì 13 maggio 2009

Fábula II: Onu, materialização de um livro

Onu tinha por hábito guardar sempre uma cópia das cartas que escrevia.
Um dia, por acaso, ou por engano, encontrou uma velha carta que releu e pela qual foi insultado.

Não se revia nas ideias escritas e pensou:

Sou hoje o mesmo Onu que era quando escrevi esta carta?
Não!


E assustou-se. Imaginou-se desdobrado em infinitos Onus, cada qual reflexo de um qualquer pensamento contemporâneo e percebeu-se infinitamente desdobrável num mundo cheio de Onus, cada um com as suas especificidades, contraditórios e incompatíveis, alguns, reflexo daquilo que ambicionava ser, outros, materialização das suas mais seguras negações. E compreendeu que eram as palavras escritas que possibilitavam a existência destes múltiplos Onus e decidiu-se a nunca mais na sua vida escrever uma carta que fosse.

Deixou de escrever no papel, para escrever na sua cabeça e rapidamente descobriu em si uma memória inesgotável que o maravilhou.
Começou por escrever cartas que lia e relia para trás e para a frente com a facilidade com que faria se as tivesse escritas em papel diante do seu nariz.
E tamanha foi a sua felicidade ao descobrir este dom, que não só deixou de escrever cartas, como pura e simplesmente deixou de escrever o que quer que fosse em papel. E memorizou.

Memorizou as listas do supermercado. Memorizou as anotações que anteriormente fazia no caderno que o acompanhava. Memorizou as palavras cruzadas e percebeu que assim mais rapidamente as acabava. E a sua memória revelava-se um poço sem fundo.

Decidiu-se então a levar a memória ao limite daquilo que conseguia imaginar e começou a escrever um livro que todos os dias relia na sua cabeça. E como era bonita a história que escrevia!
Relia capítulo atrás de capítulo e deleitava-se com a beleza do que contava e com a eloquência das palavras que escolhia.

Mas a memória que usava para guardar tão bela história, substituía aquela que servia para a realização das actividades mais triviais do dia a dia. Começou a ter dificuldades em coordenar os braços e as pernas e começou a deixar de conseguir fazer desportos. Já não conseguia correr. Já não conseguia nadar. Já não conseguia cozinhar. Já não conseguia arrumar a casa.

E quanto mais movimentos perdia, mais bonito se tornava o livro que escrevia e mais se aproximava do fim.

E mais limitado se tornava Onu. Já não se conseguia equilibrar. Já não conseguia tomar banho. Já não conseguia andar. Já não conseguia sequer sair da cama. E foi internado num hospital, sob o risco de morrer de fome, porque já não fazia movimento nenhum.

E foi passado pouco tempo que a história chegou ao fim, pois quem o viu no seu último momento contou que o último gesto que fez foi o esboçar de um sorriso de profundo contentamento.

Onu tinha-se materializado livro!