As cidades são, já desde há muito tempo, simples e pragmáticas. São como máquinas que se organizam de maneira a que funcionem de modo eficaz. Usam as pessoas para desempenhar as funções vitais que lhes permitam ser cidades disciplinadas. O acordo entre pessoas e cidades é antigo, de modo que, regra geral, as pessoas fazem os possíveis para ajudar as cidades a funcionar bem. As cidades são também mais velhas que as pessoas, muito mais velhas, e têm, por isso, autoridade sobre estas.
Jarreta chegou um dia a uma grande cidade que se avizinhava ao longe, lá bem ao longe, quando o horizonte não deixa distinguir mais que um perfil que recorta o céu, bela e organizada como tantas outras que conhecera. A cidade era conhecida por aqueles que a habitavam como a cidade de Arromac. Os que não a habitavam, aceitavam este nome, por não se lembrarem de nenhum melhor.
Arromac localizava-se, do ponto de vista geográfico, numa zona bastante atípica. A cidade crescia duma baía, tão bonita quanto grandiosa, que abraçava com toda a força dos seus braços, até ao cume dum vulcão que espreitava sorrateiro lá de cima. Ocasionalmente, e quando aborrecido, emergia em erupções violentas que arrasavam Arromac nalguns dos seus pontos mais sensíveis.
Arromac era uma cidade velha, não habitada por gente velha, mas velha no sentido em que várias gerações de gente nova a haviam percorrido e, por vezes, mal tratado. Arromac era uma senhora que deixava perceber nas rugas do seu rosto a beleza que outrora ostentara.
Apesar de todas estas particularidades, Arromac poderia, ainda assim, ser uma cidade como tantas outras. Mas não era. Ao contrário de algumas cidades vizinhas, que mantinham excelentes relações pessoais e profissionais com os seus cidadãos, Arromac não tinha qualquer tipo de autoridade sobre aqueles que a ocupavam. Era como se os seus habitantes não quisessem saber dela para nada e pura e simplesmente lá morassem porque não tinham outro sítio para onde ir. Deste modo as regras que normalmente regem as pessoas da cidade, acordadas entre umas e outra, ou outras e uma, aqui não existiam, de maneira que cada um fazia o que lhe desse na real gana sem prestar satisfações à pobre Arromac que se sentia impotente perante tamanho abuso.
Jarreta nunca na sua vida, na sua longa e completa vida que dedicara a coleccionar cidades, tinha visto tamanha desorganização.
Jarreta não viu regras de cidadania.
Jarreta não viu regras de trânsito.
Jarreta não viu regras de funcionamento.
Jarreta não viu regras disto e daquilo, assim como não viu regras de qualquer natureza, de maneira que se encontrou metido numa verdadeira selva urbana, onde macacos e macacas se passeavam descontraidamente, satisfazendo os caprichos que lhe iam na alma.
Jarreta não se sentiu menos impotente que Arromac perante a selvajaria dos seus habitantes. Conformou-se e explorou-a.
Apesar de tamanho desrespeito, Arromac mantinha-se bela na sua decadência, pois deixava adivinhar por trás da película suja que a cobria, a nobreza do que era a sua essência. Era como um palácio gigantesco deixado ao abandono, onde era preciso percorrer sala atrás de sala, espreitar por baixo de tapetes e atrás de cortinas, subir e descer escadas, saber ver, onde outros não viam, o esplendor que raramente se encontra.
Por isso, e por outros motivos talvez, Jarreta apaixonou-se por Arromac.
Quando se vive muito tempo na mesma casa sem a limpar, cria-se uma sujidade que se domestica e que passa a ser uma sujidade característica dessa casa, uma sujidade com carácter, digamos assim, que não incomoda aqueles que lá vivem. Estes passeiam por ela, com a indiferença de quem só vê aquilo que sabe ser a sua verdadeira casa.
Foi com esta indiferença que Jarreta descobriu Arromac, passando pela sua sujidade com a confiança e intimidade de quem já a tinha habitado por longos anos.
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