lunedì 25 febbraio 2008

Rufinas

Rufinas era um rapaz franzino e esverdeado. Tinha uma cara chupada e um ar decadente, reflexo duma alimentação subnutrida, não por falta de meios, mas por desleixo. Tinha cabelo escovado que lhe caía na cara ao acaso, sem o mínimo vestígio da passagem dum pente que lhe tentasse dar um ar mais digno. Tinha olhos pretos e um nariz magro e pontiagudo que encerrava uma boca que não ria, senão para alegrar a superiores. Na cara crescia-lhe um pelo ralo, a que não se podia chamar barba, que nunca era rapado, acentuando o jeito deslavado com que se apresentava. Sustentava esta figura num corpo escanzelado e desequilibrado, cuja única função era transportá-lo da porta do carro para outro sítio qualquer. Não andava a pé e nunca fazia desporto, não tanto por lhe faltar a vontade, mas porque a saúde débil não o permitia. Não se preocupava com a aparência repugnante que tinha porque julgava o intelecto superior ao corpo.

Ainda que nunca tivesse passado dum aluno mediano durante o seu percurso académico, acreditava possuir uma mente superior. Aceitava com desprezo os resultados medíocres porque não via nos professores cabeças suficientemente sabedoras para o poderem avaliar. Não cultivava muitos amigos, porque a sua aparência doente era alvo de chacota da miudagem, mas os que tinha eram-lhe leais.

Acabou os estudos sem mérito e entrou para a vida profissional decidido a fazer o que fosse preciso para ter sucesso. Ali, e rodeado de gente menos parva e mais adulta, encontrou novas amizades, com as quais manteve boas relações pessoais e, sempre que lhe convinha, excelentes relações profissionais.

Desde o princípio não sentiu dificuldades em pisar colegas de trabalho para sobressair. Fazia um esforço desmesurado para que reparassem nele. Aliou a sua falta de escrúpulos a uma sede de conhecimento rápido que lhe permitisse adquirir uma posição de destaque. Assim aconteceu e no final do primeiro ano, quando lhe reconheceram o mérito profissional, sentiu-se concretizado sem sentir o peso da dor daqueles que atropelou. Os anos seguiram-se e nunca mudou a sua conduta.

Ao fim de algum tempo encontrou num superior o modelo de vida que procurava e tornou-se cego. Deixou de perceber a fronteira que separava os seus amigos dos restantes colegas de trabalho, começando também a passar por cima destes. Eles ressentiram-se e avisaram-no, sem no entanto deixar de prezar a sua amizade. Apesar de atraiçoados confiaram que o seu aviso seria suficiente para reatar as boas relações. Desconheciam que naquela fase da vida, Rufinas privilegiava o seu novo objectivo às antigas amizades.

Perdeu a confiança daqueles que lhe eram próximos e focou-se unicamente em chamar a atenção daquele misterioso homem que iluminava a sua existência. Tentou vestir-se melhor e disfarçar a cara doente que ostentava, mas cedo percebeu que o esforço era inglório.

Por fim, e quando todas as suas relações pessoais já estavam deterioradas, conseguiu finalmente a atenção que tanto tinha desejado. Foi recompensado com conversas mais privadas e a possibilidade duma relação pessoal e profissional com aquele homem que tanto admirava. Apaixonou-se. Nunca tinha tido sucesso com raparigas, mas nunca tinha manifestado tendências homossexuais. A sua virgindade era assunto que o envergonhava e que, nesta fase da vida, lhe deixava dúvidas em relação ao que desejava.

Enquanto se tornava cada vez mais próximo daquela figura misteriosa, afastava-se cada vez mais dos amigos que em tempos o animavam. A dada altura alcançou uma relação mais próxima do que algum dia poderia vir a imaginar. Quando se apercebeu, tinha a língua daquele homem enigmático a vasculhar os recantos da sua boca. Deixou-se levar pela segurança e pela naturalidade com que ele conduzia a situação. Naquela noite perderia a virgindade, mas não da maneira que sempre imaginara.

No dia seguinte, ao acordar, o homem que lhe roubara a dignidade comunicou-lhe que aquela tinha sido uma noite de excessos em que ambos se tinham descontrolado. Seria melhor se nunca mais se encontrassem.

Correu para casa sem dar conta do caminho que seguia e sem saber o que pensar. Estava completamente perdido e desnorteado. Nunca se tinha sentido tão inseguro. Quando chegou a casa chorou durante cinco dias seguidos. Esvaziou-se em lágrimas, mas não encontrou nenhum sentimento que o voltasse a preencher. Pela primeira vez na vida não tinha certezas. Lembrou-se de ligar a algum amigo, mas só aí percebeu que já não tinha nenhum. Os anos que passou a trepar pelas pessoas afastaram-no definitivamente do mundo das amizades que é o único refúgio dos desamparados. Empalideceu. Percebeu que naquele momento já não contava com ninguém. Estava sozinho e isolado. Enlouqueceu. Correu à volta do quarto. Bateu com a cabeça nas paredes. Mordeu os braços e arranhou o corpo. Chorou as lágrimas que já não tinha. Finalmente olhou pela janela do quarto e encontrou a solução.

Abriu as portadas da janela com uma expressão de alívio. Passou a perna para o lado de lá num gesto maquinal e inconsciente. Balançou o pouco peso do corpo para fora e passou a outra perna. Teve tempo de largar um suspiro. Caiu, como uma pena leve que baloiça aos ziguezagues pelo ar até encontrar um chão que a ampare. Não se ouviu nem uma pancada seca quando tal aconteceu. Foi encontrado horas mais tarde por uma vizinha que chamava o cão que lhe mijava na cabeça.