Onu tinha por hábito guardar sempre uma cópia das cartas que escrevia.
Um dia, por acaso, ou por engano, encontrou uma velha carta que releu e pela qual foi insultado.
Não se revia nas ideias escritas e pensou:
Sou hoje o mesmo Onu que era quando escrevi esta carta?
Não!
E assustou-se. Imaginou-se desdobrado em infinitos Onus, cada qual reflexo de um qualquer pensamento contemporâneo e percebeu-se infinitamente desdobrável num mundo cheio de Onus, cada um com as suas especificidades, contraditórios e incompatíveis, alguns, reflexo daquilo que ambicionava ser, outros, materialização das suas mais seguras negações. E compreendeu que eram as palavras escritas que possibilitavam a existência destes múltiplos Onus e decidiu-se a nunca mais na sua vida escrever uma carta que fosse.
Deixou de escrever no papel, para escrever na sua cabeça e rapidamente descobriu em si uma memória inesgotável que o maravilhou.
Começou por escrever cartas que lia e relia para trás e para a frente com a facilidade com que faria se as tivesse escritas em papel diante do seu nariz.
E tamanha foi a sua felicidade ao descobrir este dom, que não só deixou de escrever cartas, como pura e simplesmente deixou de escrever o que quer que fosse em papel. E memorizou.
Memorizou as listas do supermercado. Memorizou as anotações que anteriormente fazia no caderno que o acompanhava. Memorizou as palavras cruzadas e percebeu que assim mais rapidamente as acabava. E a sua memória revelava-se um poço sem fundo.
Decidiu-se então a levar a memória ao limite daquilo que conseguia imaginar e começou a escrever um livro que todos os dias relia na sua cabeça. E como era bonita a história que escrevia!
Relia capítulo atrás de capítulo e deleitava-se com a beleza do que contava e com a eloquência das palavras que escolhia.
Mas a memória que usava para guardar tão bela história, substituía aquela que servia para a realização das actividades mais triviais do dia a dia. Começou a ter dificuldades em coordenar os braços e as pernas e começou a deixar de conseguir fazer desportos. Já não conseguia correr. Já não conseguia nadar. Já não conseguia cozinhar. Já não conseguia arrumar a casa.
E quanto mais movimentos perdia, mais bonito se tornava o livro que escrevia e mais se aproximava do fim.
E mais limitado se tornava Onu. Já não se conseguia equilibrar. Já não conseguia tomar banho. Já não conseguia andar. Já não conseguia sequer sair da cama. E foi internado num hospital, sob o risco de morrer de fome, porque já não fazia movimento nenhum.
E foi passado pouco tempo que a história chegou ao fim, pois quem o viu no seu último momento contou que o último gesto que fez foi o esboçar de um sorriso de profundo contentamento.
Onu tinha-se materializado livro!
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