martedì 22 gennaio 2008

Cidade de B

Jarreta tinha por hábito coleccionar cidades. Não as visitava. Coleccionava-as!
Caminhava com segurança. Ouvia a música de que gostava, não nos auscultadores do seu i-pod, mas na sua cabeça.
Andava sempre sozinho. Passava despercebido quando visto de longe no meio da multidão. Não tinha amigos, nem familiares. Tão pouco tinha conhecidos. Variava propositadamente as lojas que frequentava para evitar ser reconhecido. Não tinha emprego, nem o ambicionava.

Jarreta gostava, sobretudo e essencialmente, de música e de coleccionar cidades.
No terceiro domingo do mês de janeiro, Jarreta chegou, pela primeira vez, à cidade de B. Não a conhecia, nem nunca ouvira falar dela. Jarreta não esperava ser surpreendido pela cidade de B. No fundo, não sabia porque lá estava.

A cidade de B apresenta a condição rara de não se estender nem numa planície nem numa montanha, mas sim em ambas. Na realidade, a cidade de B podia ser duas cidades. Existe o cá em baixo e existe o lá em cima, divididos por um enorme tapete de nuvens que os escondem um do outro.

Quem habita cá em baixo afirma nunca ter visto o sol. Quem habita lá em cima acredita que a cidade flutua acima do céu e paira por cima de outras cidades sem nunca tocar no chão.

Jarreta chegou à cidade num comboio de alta velocidade vindo de oriente. Quando saiu da estação encontrou a cidade-planície que, de traçado largo e rigoroso, se expandia à sua frente a perder de vista.

Errou pelas ruas sem destino. Pontualmente entrou em edifícios que lhe chamaram a atenção. Sentiu-se bem tratado pela cidade que agora o recebia. Nas ruas viu gente que se passeava com alegria. Como todos os outros, não viu o sol.

Ao fim de largos passos, Jarreta, como que por desastre, encontrou uma máquina rara que o convidou a atravessar o céu. Considerando que tinha já conhecido a cidade-planície, aceitou o convite da máquina rara e saltou para as suas costas. De imediato a máquina arrancou para o levar em poucos segundos à outra metade daquela estranha cidade de B.

Ao chegar a esta nova parte da cidade, Jarreta sentiu o ar mais leve e a luz mais forte. As ruas eram estreitas e altas. Os edifícios eram um pouco mais velhos que na cidade-planície e por isso tinham as costas tortas, inclinando-se para a frente. As ruas eram um espectáculo de luz e sombra que distraíam Jarreta. A cidade-montanha era desorganizada. O seu traçado era irregular. As ruas, já velhas e caprichosas, contorciam-se para o lado que lhes convinha e por isso os percursos eram caóticos.

Jarreta escalou a cidade-montanha com agrado. Ao chegar a uma praça grande, encontrou uma senhora torre que do alto dos seus duzentos metros o convidou a subir. Jarreta subiu. Ao chegar ao cimo viu a cidade-montanha flutuante. Aquela que pairava em cima dum manto de nuvens. Parou por vinte e sete minutos e riu perante tão bizarra e maravilhosa situação. Depois desceu reconfortado e bem-disposto. Deixou-se perder pelo labirinto que era a cidade-montanha e quando deu por si, encontrava-se rodeado por um espesso nevoeiro.

As nuvens que suportavam a cidade-montanha tinham subido para bloquear a visão dos seus habitantes. Em menos de cinco minutos deixou de ver o que quer que fosse.

Decidiu que era a altura de abandonar a fabulosa cidade de B. Desceu às apalpadelas para a cidade-planície e encontrou o caminho até à estação. Despediu-se da cidade de que tanto gostou e guardou-a no bolso.

Quando chegou a casa tirou-a do bolso. Meteu-a junto de tantas outras na colecção que orgulhosamente mantinha.


1 commento:

g ha detto...

Nuno continua assim, não percas o electrico..