Acordou repentinamente naquela manhã antes da hora habitual. Um sentimento inexplicável alastrava-se da sua barriga para tomar conta de todos os seus membros. Estava irrequieto. Ouviu uma ou duas notas soltas.
Levantou-se de um ápice sem perceber que estranha força o empurrava. Uma música inédita nascia de dentro de si.
Sem saber porquê sentia-se culpabilizado por tudo aquilo que nunca havia feito. Sentia que não tinha sido ninguém. Sabia que tinha sido um indivíduo inútil do ponto de vista da sociedade enquanto elemento singular. Uma nova vontade de mudar apoderara-se dele. Queria fazer algo de bom. Queria ser melhor. Queria contribuir com algo dele para o Mundo. Mas não sabia o quê.
Deambulou. Depois parou. Sentou-se. Pensou. Que estranha sensação o fazia querer ser melhor. Não sabia como. Ouvia notas mudas que tentavam exclamar algo.
Levantou-se, olhou-se ao espelho e encontro no reflexo os olhos duma criança entusiasmada que esperava a indicação dum caminho. A música dentro de si crescia. Ganhava expressão. Indicava uma resposta.
Vestiu-se. Saiu de casa. As notas graves aceleraram-lhe o passo. Por dentro, vibrava. Descia os degraus dois a dois. Três a três. Saltava lanços de escadas inteiros. Voava. Sentiu a música ganhar uma intensidade crescente.
Sorria perante a mudança que se preparava para efectuar na sua vida. Iria finalmente fazer a diferença. Encontrou na música que agora se tornava grandiosa a resposta para o vazio que tinha sido a sua vida.
Porque a vida não faz sentido se nos limitarmos a passar ao lado. A oportunidade é só uma e não saber o que fazer com ela atira-nos para a enorme massa de gente cujos nomes desconhecemos. Ele não queria ser desconhecido. A ambição dominava todo o seu ser.
Saiu determinado a gravar na pedra da História o seu nome com letras garrafais.
Sentir o que se deve realmente fazer acontece, com sorte, uma vez na vida. A expressão no seu rosto deixava adivinhar esse sentimento.
Nem se apercebeu que já saíra do prédio onde morava. Lançou-se pela rua com um único objectivo na mente. A música estava imparável.
As notas eram asas que, sobrepostas, o faziam atravessar a multidão.
Foi tarde demais quando se apercebeu do autocarro que se aproximava a uma velocidade fatal. Teve tempo para sentir o coração cair da altura do andar onde morava e esborrachar-se no seu corpo.
A música, com toda a sua intensidade, parou!
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2 commenti:
Como já te disse, não sei o que posso aqui escrever, não porque aconteceu “o corte oficial d relações entre o costelas e a cidade d Milão” , mas sim porque tudo aquilo que aqui vá escrever será sempre pior do que aquilo que aqui nos deixaste.
Ainda assim, sinto que tenho de o fazer mesmo que pouco, porque me pesa a consciência é certo, mas também porque me identifico profundamente com este texto e com a inquietação que ele e a música nos levantam. Está para acontecer algo.
Sobre mim, escrevi-o recentemente a uma amiga minha: “Estou descontente, inquieto, angustiado, revoltado. Mas cada vez mais interessado. Não contigo, com a vida, com o mundo.
Mudei. Mudo constantemente. Quero mudar mais ainda. A vida, e para o futuro sempre em paralelo, o mundo. Para melhor, sempre para melhor.
Gostava que tivesses parte nesta mudança, ainda acredito em ti. Acredito no melhor de ti.”
Também em ti meu amigo, eu acredito. No melhor de ti. E se isto não for o melhor, persiste pois é já muito bom.
Faz-me esse favor, e enquanto eu ainda procuro um sinal, uma indicação de um caminho para mudar e melhorar o mundo, não deixes que o autocarro te apanhe e continua a escrever.
Um Forte Abraço
Descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já
vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma tigela de
cerejas. As primeiras, ela chupou-as displicente, mas percebendo que
faltavam poucas, até rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabarolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir
quem eles admiram, cobiçando os seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projectos megalómanos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para
reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de
um fim-de-semana com a proposta de abalar o milénio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir
estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturas.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de
"confrontação", onde "tiramos factos a limpo".
Detesto fazer acareação de desafectos que lutaram pelo "majestoso" cargo
de secretário-geral do grupo coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade* que afirmou:
"as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos".
O meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.
Quero a essência, a minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na tigela, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir dos seus tropeções, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge da sua
mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão
somente andar ao lado do Bem.
Caminhar perto de coisas e pessoas verdadeiras, desfrutar desse amor
absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.
O essencial faz a vida valer a pena.
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* Mário de Andrade era um prestigiado poeta angolano
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